quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Misticismo


Uma experiência mística significa sentir-se um só com Deus ou com a “alma do universo”. Em muitas religiões, diz-se que há um abismo entre Deus e sua criação. O místico, porém, não conhece este abismo. O que ele – ou ela – conhece é uma “elevação a Deus”.
Trata-se do seguinte: aquilo que geralmente chamamos de “eu” não é nosso eu verdadeiro. Em poucos e efêmeros momentos podemos experimentar a sensação de nos identificarmos com um eu muito maior. Alguns místicos chamam este eu maior de Deus, outros de “espírito cósmico”, outros de “natureza cósmica”, outros ainda de “universo”. Nessa identificação, nessa fusão, o místico experimenta a sensação de “perder-se a si mesmo”: ele desaparece – ou se perde – em Deus, como uma gota d’água “se perde” quando se mistura à água do mar. Certa vez, um místico indiano expressou assim essa experiência: “Quando eu era, Deus não era. Agora Deus é, e eu não sou mais”. O místico cristão Angelus Silesius (1624-1677) disse: “A pequena gota se transforma em mar quando chega até ele; e assim a alma se transforma em Deus quando é nele acolhida”.
Talvez você não ache muito confortável a ideia de “perder-se da si mesma”, Sofia. E eu entendo você. Mas o ponto é o seguinte: o que se perde é infinitamente menor do que aquilo que se ganha. Você se perde nesta forma que você tem agora, mas ao mesmo tempo compreende que você é algo infinitamente maior. Você é o universo inteiro. Sim, você é o espírito cósmico, querida Sofia. Você é deus. Se para isto você tem de perder-se enquanto Sofia Amundsen, então talvez sirva de consolo o reconhecimento de que um dia você terá de perder esse “eu cotidiano”, de uma forma ou de outra. Para os místicos, o seu verdadeiro eu que você só poderá experimentar se conseguir se libertar de si mesma, é o fogo misterioso que queima para toda a eternidade.
Só que tal experiência mística nem sempre ocorre espontaneamente. Com frequência, o místico tem de percorrer “o caminho da purificação e da iluminação”, a fim de poder se encontrar com Deus. Este caminho consiste na meditação e numa vida extremamente simples. Ao fim da jornada, porém, o místico chega a seu objetivo e pode dizer: “Eu sou Deus! Eu sou Você!”.
Encontramos vertentes místicas em todas as grandes religiões do mundo. E tudo o que os místicos escrevem sobre suas experiências apresenta visíveis semelhanças, a despeito de todas as diferenças culturais. Somente quando o místico tenta uma interpretação religiosa ou filosófica para sua experiência mística é que se evidencia o plano de fundo cultural.
Na mística ocidental – quer dizer, no judaísmo, no cristianismo e no islamismo –, o místico afirma que seu encontro é com um Deus pessoal. Embora deus esteja presente na natureza e na alma humana, ele também está muito além e muito acima deste mundo. Na mística oriental – isto é, no hinduísmo, no budismo e na religião chinesa –, o que se afirma é que o místico experimenta uma fusão total com um Deus que é o “espírito cósmico”. O místico pode dizer “Eu sou o espírito cósmico”, ou então “Eu sou Deus”. Pois Deus não está apenas presente no mundo; ele não tem outro lugar para estar.
Na Índia, sobretudo, já havia várias e fortes correntes místicas muito antes de Platão. Swami Vivekananda, que contribuiu para trazer ao Ocidente os pensamentos do hinduísmo, disse, certa vez: “Assim como certas religiões do mundo chamam os ateus os homens que não acreditam num Deus pessoal além de si mesmos, dizemos que é ateu aquele que não acredita em si mesmo. Não acreditar no esplendor da própria alma: isso é o que chamamos de ateísmo”.
A experiência mística também pode ser de importância para a ética. Um antigo presidente indiano, Radhakrishnan, disse certa vez: “Ama teu próximo como a ti mesmo, pois tu és o teu próximo. É ilusão acreditar que teu próximo é outro, e não tu”.
Pessoas de nossa época, que não pertence a determinada religião, tem relatado experiências místicas. De repente elas experimentam algo que chamam de “consciência cósmica” ou “sentimento oceânico”: sentem-se como que arrancadas do tempo e experimentam o mundo “da perspectiva da eternidade”.

Sofia sentou-se na cama. Ela precisava ver se ainda tinha um corpo. Enquanto lia sobre Plotino, teve a sensação de atravessar o quarto flutuando, sair pela janela e voar bem alto sobre a cidade, de onde via as  pessoas lá embaixo, na praça. Depois continuou subindo, rumo à órbita do planeta em que vivia, passando sobre o mar do Norte, sobre a Europa e depois, mais ao sul, sobre o Saara e as extensas estepes africanas.
Todo o enorme globo terrestre transformara-se numa única pessoa viva e esta pessoa parecia ser a própria sofia. Eu sou o mundo, pensou. Seu próprio eu era todo o imenso universo, que ela sempre havia sentido como algo insondável e ameaçador. El ele continuava imenso e majestoso, só que agora ela também o era.
Esta sensação maravilhosa começou a se diluir rapidamente, mas Sofia teve a certeza de que jamais a esqueceria. Alguma coisa parecia ter lhe saltado da fronte e se misturado com otodo o resto. Como uma gota de tina capaz de tingir toda uma bacia de água.
Depois que tudo passou, Sofia se sentiu como se acordasse de um sonho. Estava com dor de cabeça. Com uma ponta de decepção, constatou que tinha um corpo e que este corpo tentava se levantar da cama. Ela tinha dores das costas por ter ficado tanto tempo de bruços lendo a extensa carta de Alberto, mas havia experimentado uma sensação da qual jamais se esqueceria.
Finalmente, conseguiu ficar de pé. Furou as orelhas da carta e colocou-as no fichário, junto com as outras lições. Depois saiu para o jardim.
Ali, os pássaros cantavam como se o mundo tivesse acabado de ser criado. Atrás da coelheira, as folhas das bétulas eram de um verde-claro tão intenso que parecia que o Criador ainda não terminara seu trabalho de pintá-las.
Será que ela podia mesmo acreditar que tudo aquilo era um “eu” divino? Será que ela podia acreditar que tinha uma alma e que esta alma era uma “centelha do fogo” divino? Se isto fosse verdade, então ela própria seria uma criatura divina.



O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, p. 154-156

Nenhum comentário: