quinta-feira, 31 de outubro de 2013

CONCURSO LITERÁRIO DO SESC PRETENDE QUE OS AUTORES PROMOVAM O BEM-ESTAR E OS VALORES MORAIS


[por Airton Uchoa Neto]

Leitores queridos, minha intenção hoje era finalmente escrever o penúltimo artigo da série que comecei já faz algum tempo. Temo que um assunto mais urgente me obriga a adiar esse trabalho agradável.

No artigo oitavo do edital para conto, crônica e conto infantil e no artigo sétimo do edital para poesia do SESC (seguem os links)…





…diz que as obras apresentadas e submetidas ao julgamento “devem conter elementos que promovam o bem-estar e os valores morais”. Percebi, em primeiro lugar, que não adiantaria submeter nada que eu já tenha escrito para esse concurso. Depois percebi que não conseguiria escrever nada capaz de promover “o bem-estar e os valores morais”. Não que eu seja um libertino insano na vida civil – mas poderia ser na literatura – mas o fato é que não posso saber de que bem-estar e de que valores mais se trata. Não estou sendo cínico nem me fingindo de desentendido. Cabe perguntar: valores morais e bem-estar segundo quem? A descriminalização/legalização do aborto, só para dar um exemplo, será considerada como promotora do bem-estar para alguns e como uma quebra violenta de todos os valores morais vigentes para outros. Por outro lado, não se pode controlar a relação entre leitores e escritores: uma obra tematicamente chocante e que, a princípio, não pretenda pregar nenhuma lição pode, eventualmente, alertar o leitor quanto a certos perigos da vida, enquanto outras, que visam diretamente uma lição de moral, promover o bem-estar, podem ser vistas apenas como diversão ligeira ou como idealização ingênua da vida. Mais uma pergunta: como um escritor, ao escrever, pode promover o bem-estar? O que os júris do SESC diriam se eu afirmasse que, de certa forma, os desafios temáticos e estéticos de Baudelaire me trouxeram bem-estar e me fizeram refletir sobre valores morais bem mais profundamente do que Saint-Exupéry? Refazendo a pergunta em outros termos: ainda é possível pensar nos escritores como reformadores? Refazendo mais uma vez: quantas armadilhas não poderiam se esconder nisso? O que me levou a escrever esse texto de perguntas foi, sobretudo, uma grande preocupação. O SESC, como promotor do concurso, tem o direito de colocar as regras que quiser no edital. Claro. Mas é inevitável querer saber a razão desse artigo em específico, o qual naturalmente teria o grande poder de levar muitos textos de valor (literário) a ser desclassificados. Parece se tratar de um sintoma do momento sociopolítico do Brasil de agora: os valores morais têm sido tema de polêmicas - e de perigosíssimas falsas polêmicas -, demandas sociais que a custo conseguiram direito à cidadania e direito de discussão séria, como o caso LGBT, são ameaçados pelo moralismo de religiosos radicais que tiveram acesso ao poder político. Demandas sociais que acredito válidas (minha opinião) como o direito ao aborto, que já citei aqui e sei que, sim, pode parecer muito ofensivo para muitas pessoas (a própria palavra "aborto" acabou sendo tornada um palavrão, estratégia perfeita para que nenhuma discussão séria vá adiante), foram silenciadas e não vão deixar de ser um tabu tão cedo, se um dia deixarem, espero que sim. NÃO ESTOU DIZENDO QUE O SESC SEJA CONTRA NENHUMA DESSAS DISCUSSÕES NEM QUE A INSTITUIÇÃO PROMOVA A PERSEGUIÇÃO A QUALQUER TIPO DE GRUPO. (Coloquei em caixa-alta porque eu sei como é fácil um mal-entendido num texto como esse meu de agora, e talvez nem mesmo o texto em caixa-alta ajude tanto, mas quem tiver boa-fé vai me entender.) NEM ESTOU DIZENDO QUE O SESC ESTEJA PROMOVENDO A CENSURA. Embora, sim, agora eu afirmo, esteja chegando muito perto disso. Ora, vejamos bem: se o texto que você vai submeter ao concurso tem que "promover o bem-estar e os valores morais" isso vai afetar diretamente tanto a escolha do tema como o tratamento do tema. Isso é inevitável. Se, por acaso, você colocar um personagem viciado em drogas pesadas, na sua narrativa ele necessariamente terá que ser destruído como exemplo ou se arrepender numa cena emocionante? Ele não pode simplesmente acordar com uma ressaca monstruosa e pensar em como tudo ao seu redor é opressor, e mais opressor o quanto mais moral? Boa. O que fazer com o sujeito que não se enquadra e para quem o que chamamos de moral pode ser uma ditadura? Como sempre, trago mais perguntas do que respostas, mas, como escritor, creio que é o tipo de coisa que eu posso promover.




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