quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Trechos do cotidiano #9

Era tarde e a ociosidade me permitiu olhar a natureza por um instante.
Vi uma libélula - ou eu acho que era uma - voando rapidamente de um ponto da parede, rumo ao mundo exterior, de repente barrada pelo vidro transparente da frente do escritório. Energicamente, a libélula ainda se bateu mais algumas vezes contra o intransponível vidro antes de se deixar vencer e pousar ali naquela superfície mesmo.
Quase imóvel e silenciosa, ela permaneceu ali e de repente uma enorme tristeza me acometeu. E se fôssemos nós a libélula...? Quero dizer, e se a libélula fosse dotada de razão, como nós, e estivesse naquela mesma situação? Ela provavelmente repetiria a manobra de se debater no vidro, afinal, como poderia ser impedida de continuar o voo se não há "nada" ali? A libélula, mesmo dotada da razão, não faz parte da sociedade humana e, portanto, não tem ideia do que seja o vidro. Ora essa - ela pensaria - por que não consigo continuar?
E então,  repetindo o movimento da "libélula sem razão", aquela libélula racional pousaria sobre o vidro e então tentaria compreender o que era aquilo a barrando no rumo para o mundo exterior. Depois de um tempo ela provavelmente se apegaria tanto à tentativa de decifrar o vidro que provavelmente esqueceria do porquê primordial de estar ali. Um pouco depois, então, esqueceria da existência do mundo externo e se apegaria completamente às "teorias do vidro". Talvez - ou provavelmente - depois de algum tempo ela voasse de volta para o seu ponto de partida dentro do escritório e de lá ficasse apenas observando o vidro e tentando desvendá-lo. Ela poderia até chamar outras libélulas e convidá-las a tentar compreender o vidro, mas o mundo exterior estaria esquecido. A razão primordial para o voo da libélula, totalmente deixada de lado por um vidro. Um vidro! O que é todo o mundo se comparado a um vidro?
Triste isso, não é? Não? Então faca-se uma analogia: nós somos a libélula. O que é o vidro e o que seria o mundo exterior? Pense.

Vamos lá, não vamos nós deixar levar. Tem um mundo todo de possibilidades bem diante de nós e não conseguimos ver. Vamos ver além, é só um vidro o que nós cega!

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