sábado, 27 de abril de 2013

Literariamente Falando


O cappuccino dela fumegava em frente a mim, assim como o meu chocolate quente, enquanto ela tinha ido ao banheiro. Milhares de cenas do meu dia vinham e iam na minha mente tão lentamente ou tão rapidamente quanto à fumaça que o chocolate exalava.
– Esfriou? – ela perguntou, ao chegar de volta, referindo-se ao cappuccino.
Sacudi a cabeça em sinal negativo, por um instante tentando sacudir as lembranças que me invadiam a mente, sem sucesso.
Aproximei a xícara quente de chocolate quente dos meus lábios, olhei a espuma aconchegante e doce sobre ele e assoprei um pouco antes de sorver minimamente o líquido que estava quente demais – o suficiente para uma noite fria como aquela.
– Pensando no quê? – ela perguntou, como costumava fazer quando eu ficava tanto tempo (alguns minutos, na verdade) sem dizer nada.
Não respondi de pronto. Peguei a colher de chá que estava no pires até então e mexi um pouco o chocolate. Ela entortou a cabeça para o lado, curiosa, esperando uma resposta minha. Quantas vezes não a ouvi dizer “Quando você pergunta a alguém o que está pensando, poucas são as chances de obter uma resposta sincera”. Decidi ser o mais sincero possível:
– Muita coisa.
Ela me olhou por mais alguns instantes antes de voltar seu olhar para a xícara com o cappuccino e repetir o mesmo que eu fizera antes: aproximá-la dos lábios, assoprar e sorver.
– Está realmente frio hoje, não? – ela comentou, olhando para a xícara, mexendo com a colher, assim como eu fizera.
– Muito – eu disse, tomando um gole que me queimou a língua e o céu da boca.
– Hoje o dia foi longo – ela comentou, soprando mais uma vez o cappuccino antes de tomar mais um gole, mínimo.
– Foi – eu disse, soprando mais um pouco o chocolate. Estava mesmo bem quente.
A atmosfera do Café em que estávamos, apesar de aconchegante para um domingo à noite, era fria por estar deserta de clientes além de nós, duas pessoas perdidas numa noite gélida precisando se esquentar com alguma bebida quente e não-alcoólica.
Ela me olhou de relance, chacoalhou de leve a cabeça e voltou sua atenção novamente ao cappuccino. Finalmente tinha entendido que aquele ambiente àquela hora e naquelas circunstâncias exigia nosso silêncio. Um momento pra pensar, uma bebida quente e um aconchego, era o que precisávamos. Não palavras.
Não foi preciso pensar muito, mas uma conclusão simples e extraordinária fixou-se nos meus princípios pouco tempo depois de ter deixado meus pensamentos girarem soltos, assim como o chocolate que eu mexia com a colherzinha.
A vida é a união de muitas crônicas.
É comum no meu cotidiano tentar assimilar fatos corriqueiros literariamente. Sempre quando tentei assimilar a vida como um todo, nada além de um livro com vários capítulos me vinha em mente – conceito impregnado na cabeça de muita gente conhecida e desconhecida de mim, certamente.
Então, naquele Café, naquela noite fria, com aquele chocolate que me acabara de queimar a boca, enquanto pensava em algo no meu dia que fosse suficientemente digno de nota para tornar-se crônica, um estalo me trouxe a real aplicação da vida, literariamente falando.
Primeiro tentei recordar-me do que fizera na semana anterior – nada além daquilo que eu considerava digno de nota me veio à mente. Depois, tentei lembrar-me do mês passado – o mesmo da primeira sessão de recordações aconteceu. Quando tentei lembrar-me do ano passado, nada além do que era realmente relevante me veio em mente.
Então, como poderia considerar a vida como uma narrativa constante, sem cortes? De repente tudo pareceu diferente pra mim. De repente pensei que viver nada mais seria que uma constância de fatos relevantes e irrelevantes – os relevantes, como uma crônica; os irrelevantes como... um passado a esquecer rapidamente.
Ora, quem nunca leu um livro de crônicas? A leitura é mais fácil, os fatos são narrados de forma que se façam entender e, por mais banais que sejam, tem toda a visão e a filosofia do autor a respeito deles. Que fazemos além disso em nossas vidas, afinal? Vivemos e filosofamos a respeito disso. Temos momentos digníssimos de nota – que podem não ser tão digníssimos assim, sob o ponto de vista de outrem. A crônica que escreveremos agora depende única e exclusivamente das outras que temos em nossa bagagem. Ou melhor, em nosso livrinho de crônicas construído dia-a-dia, mês a mês, constatação a constatação.
Levantei os olhos para minha amiga rapidamente. Ela se assustou, tirou sua atenção do cappuccino e me retribuiu o olhar. Eu não disse nada, olhei novamente para o chocolate, tomei um bom gole – que dessa vez não me queimou – abri a bolsa e tirei meu notebook.
– Uma crônica? – ela perguntou, tomando o último gole do cappuccino.
– Sem dúvidas – eu disse, sorrindo-a.
– Algo digno de nota por aqui? – ela indagou, debochando.
– Digníssimo – eu disse, pronto para expressar num .doc o que me viera à mente nesses minutos em silêncio.
Ela fez sinal para o garçom trazer-lhe mais um cappuccino – me esperaria terminar mais essa crônica. Mais um momento digno de nota. Mais um para o meu livro de vivências.

2011, depois de um cappuccino.

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