segunda-feira, 18 de março de 2013

A tímida

Hoje o relógio deve não ter despertado. Talvez por isso esteja me sentindo tão bem, e com o corpo tão pouco cansado. Talvez... Viro-me vagarosamente para o relógio-despertador na mesa-de-cabeceira ao lado da cama. Sim, eu estou atrasada.
Levanto-me de um pulo, fazendo a cama estremecer. Mesmo sendo tarde pelos meus padrões, todos em casa ainda dormem.
Preparo meu café-da-manhã meio improvisado e volto para o quarto, ainda com uma xí­cara fumegante de café nas mãos. Sento-me na mesa e volto a abrir meu caderno e olhar os livros abertos sobre ela, tentando me lembrar em qual deles eu parara ontem antes de tombar na cama. Matemática, geografia e biologia estão abertos. Não me lembro em qual parei, mas resolvo recomeçar em biologia. O café que ainda fumegava sobre a mesa parecia esquentar o ambiente daquela manhã cinzenta e gélida de janeiro – sinal de que a tarde será quente, como todos os outros dias de janeiro. O que eu não daria para estar na Europa agora?
Depois de meia hora ou mais voltada para os livros, começo a ouvir o movimento no resto da casa. Espreguiço, bocejos, suspiros e um cheiro forte de café invadia a casa pouco a pouco. Coloquei meus fones de ouvido e liguei o iPod e uma música instrumental abafou um pouco os ruídos dos meus familiares.
- Bom dia, Erika – ouvi a voz da minha mãe perto da porta.
- Bom dia, mãe – respondi, entreabrindo a porta para vê-la – dormiu bem?
- Sim, muito bem – ela respondeu, colocando o braço para dentro do meu quarto, afa­gando-me os cabelos – já faz tempo que acordou?
- Não muito. Vou continuar estudando hoje, tudo bem? – eu disse, ela sabia que isso significava espero que ninguém me incomode hoje, ok?
- Tudo bem. Seus irmãos não vão te incomodar – ela disse, entendendo o recado, fe­chando a porta.
Aumentei o volume do iPod. Provavelmente agora ninguém mais falaria comigo pelo resto do dia.
Eu já tinha me acostumado a estudar assim, exaustivamente. Desde criança era excluída dos grupos de amigos que se formavam na escola, por isso tinha meus livros como únicos ami­gos. Com o tempo, com cursos e já com a prática na auto-exclusão, não via mais grande utili­dade em tentar me enturmar, por isso permanecia em silêncio, estudando apenas. Nerd, CDF, isolada, esquisita. Muitas etiquetas eram colocadas em mim e na minha personalidade, mas eu não me importava. Aprendi a não me importar com o que os outros pensam, se me impor­tasse, teria inimigos ao invés de desconhecidos.
Eu sabia que boa parte daquilo que estava estudando ali, naquele momento, era desne­cessário, pois já estava muito bem fixado na minha cabeça, mas vou fazer o quê além de estu­dar? Depois de mais esse dia de estudos, pretendia só relaxar – relaxar para mim: passar o dia no quarto, ouvindo música, desenhando ou tocando violão – não havia muito o que fazer como a maioria dos outros da minha idade. Não tinha com quem sair – irmãos, primas, paren­tes em geral apenas – por isso acabava por passar o dia lendo mais um livro. Aliás, minhas poucas saídas eram apenas até a Biblioteca, do outro lado da cidade – caminho este que minha mãe me obrigava a fazer a pé. Segundo ela, se ficasse mais tempo dentro de casa, teria anemia de tão pálida que sempre estava, de tão pouco que saía para a luz do sol.
Isso seria ser caseira? Não. Uma pessoa caseira é alguém que gosta de ficar em casa – o que não é o meu caso. O caso é que estar em casa é só menos pior do que na rua. Não ter ami­gos seria também o menos pior?

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